O conceito de “comunidades” vem revolucionando mercados, relacionamentos interpessoais e o consumo de produtos, mas talvez ainda não tenha feito tudo o que pode pela saúde da sociedade.
No Brasil, vivemos um paradoxo entre a adoção de padrões modernos de gestão e a escassez de recursos. A boa notícia é que o foco tem sido o bem estar do paciente. Ao menos, o mercado hoje tem a certeza de que não é razoável deixar de pensar no paciente nesses processos.
Nesse sentido, o País tem avançado, mas ainda de uma maneira errada, pensando em unidades operando isoladamente. Por exemplo, quando falamos de atendimento ambulatorial, já existem exemplos locais de adoção de padrões, como o Protocolo de Manchester, ligados à triagem médica com o objetivo de racionalizar o atendimento e conter gastos. Porém, a adoção de um padrão como esse por apenas uma unidade em determinando centro geográfico ou zona urbana trará pouco beneficio para a sociedade em sua volta.
Na nossa visão, quando o paciente põe os pés em um hospital ele entra para uma “comunidade de saúde” que opera em rede, trocando informações integradas em tempo real, ganhando-se assim tempo na triagem, na anamnese, nos exames e, o principal, na saúde do cidadão como um todo (menos espera, mais eficiência e assertividade). É nesse contexto que a as Comunidades de Saúde em Rede se inserem.
Todo princípio de um protocolo e do funcionamento de hospitais, clínicas e outros agentes sob a forma de comunidades se direciona para o aprimoramento na gestão clínica, com base na troca de informações digitalizadas em rede, especialmente as do prontuário médico. Por meio de comunidades integradas, será possível otimizar o tempo de atendimento, identificando melhor o perfil de cada paciente, médicos orientarão mais rapidamente o tratamento, enfermeiros serão distribuídos de forma mais adequada, de acordo com a gravidade de cada caso.
O aprimoramento garante ainda o equilíbrio entre todas as unidades hospitalares, evitando as “corridas” aos hospitais públicos que se tornam centro de excelência. Normalmente, hospitais que adotam padrões e sistemas modernos de atendimento e gestão passam a atrair pessoas de várias regiões, ultrapassando suas capacidades e perdendo os ganhos da adoção desses padrões. O objetivo de atuar em comunidade, trocando informações, é justamente aproximar pacientes em condições clínicas semelhantes, os direcionando para unidades adequadas, reduzindo danos que falhas estruturais para determinado tipo de atendimento possam causar; especialmente em um cenário que envolve a verticalização da área.
O que vemos hoje? Muitas vezes, pacientes que chegam ao hospital poderiam ser atendidos em Unidades Básicas de Saúde (UBS), nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e Centos de Saúde, ou até mesmo nas suas próprias casas pelo Programa de Saúde da Família (PSF). Além da procura espontânea, o paciente poderia ter à sua disposição a marcação de consulta ou qualquer procedimento, por telefone, ou até mesmo por sistema, desafogando assim os atendimentos de Urgência e as unidades de Emergência dos Hospitais.
A tendência é que, nesse cenário, pacientes comecem a entender as diferenças entre as unidades, percebendo quais são para atendimentos mais complicados e quais são para situações mais simples. Assim, o sistema integrado na forma de comunidade passa a ajudar os usuários a perceberem como utilizar melhor o próprio sistema público de saúde, evitando a concentração e otimizando o atendimento. Educando o paciente.
Nesse sentido, é importante destacar que o mercado ainda confunde “comunidades na área de saúde” com “comunidades de pacientes”, esquecendo que a comunidade deve envolver unidades hospitalares, clínicas e profissionais. A triagem, por exemplo, não existe apenas pelos custos, mas também para impedir que pacientes entrem em setores ou mesmo hospitais errados, o que é importante não apenas no aspecto financeiro, mas também médico, especialmente em condições emergências. Da mesma forma o atendimento domiciliar por médicos de família, para casos mais simples ou portadores de doenças crônicas, além do atendimento primário nas questões relacionadas à Medicina Preventiva.
Todo esse cenário ocorre há dez anos da regulação do setor e numa fase em que os gastos das famílias com saúde chegaram a R$ 103 bilhões frente a R$ 66 bilhões gastos pelo governo, com os Planos de Saúde se tornando “objeto de desejo” por grande parte da população, depois de longo período de estagnação. Mesmo com todo esse cenário de otimismo e consolidação, a saúde em todos os níveis e agentes da cadeia, precisa se aprimorar. Por exemplo, a saúde suplementar, mesmo depois de uma fase de reestruturação, ainda é dispendiosa em parte pela falta de uma gestão integrada de saúde. Não podemos parar: a saúde é de todos os profissionais para todos os pacientes.
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