Escrito em 27 de jan de 2009

Controle digital na epidemia de Dengue

por Dr. Leonardo Diamante

Aedes aegypti

Não são apenas os pássaros que ficam animados com a vinda de mais um verão. A chuva e o calor dessa época são também muito bem apreciados por um outro tipo de personagem: o mosquito Aedes Aegypit, transmissor da Dengue. Esse vilão da saúde pública fez um estrago considerável no verão passado, especialmente no Rio de Janeiro. Lembra das cenas? Filas cada vez maiores nos hospitais da rede pública, tendas de emergência montadas para atender a população, médicos vindos de outros estados para aliviar a sobrecarga de um sistema de saúde que não estava preparado para uma epidemia daquelas proporções e outras cenas que gostaríamos de não ter presenciado – mas que, infelizmente, a cada início de verão, tememos que voltem a acontecer em nosso país.

Inicialmente deveria ficar claro que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a dengue é um dos principais problemas de saúde pública no mundo, estimando entre 50 a 100 milhões de pessoas infectadas anualmente, em mais de 100 países, de todos os continentes, exceto a Europa. Destes, cerca de 550 mil doentes necessitam de hospitalização e 20 mil morrem em conseqüência da doença.

O Ministério da Saúde do Brasil, em 1996, decidiu rever sua estratégia e propôs o Programa de Erradicação do Aedes aegypti (PEAa), que, ao longo do processo de implantação, mostrou ser inviável a erradicação do mosquito a curto e médio prazos.

O Papel das Comunidades de Saúde em Rede

A questão é, portanto, muito mais complexa do que é habitualmente entendida. Para se obter algum êxito, são necessários o comprometimento e a participação da sociedade.

Assim sendo, qual poderia ser o papel de uma Comunidade de Saúde em Rede na abordagem da questão da Dengue? Poderia fazer a diferença tanto na prevenção quanto no tratamento dos doentes?

Ela seria uma ferramenta a mais nesta batalha. Primeiro, é preciso que haja vontade política para que ocorram ações integradas no combate à doença. Ou seja, que as três esferas de governo – municipal, estadual e federal – com suas respectivas secretarias de saúde, se entendam ao invés de ficarem em uma eterna discussão política, que acaba penalizando a população. Nesse sentido, o estado do Rio de Janeiro já sinalizou a sua boa vontade ao criar uma força-tarefa contra a Dengue. As autoridades perceberam que, sem integração política, todo o resto tende a ficar comprometido.

Quanto ao aspecto técnico de uma Comunidade de Saúde em Rede, em que acontece o compartilhamento de informações – das unidades de saúde aos dados do paciente – as conseqüências de uma epidemia de Dengue poderiam ser menos traumáticas para a população. No caso de uma pessoa já enferma e que venha a necessitar de um novo atendimento, por exemplo, ela poderia ser beneficiada por esse sistema: se o médico plantonista da unidade de saúde tiver acesso ao prontuário dessa pessoa, com todos os dados da última consulta, o atendimento ganha em eficiência. Afinal, o profissional já saberá quais remédios foram receitados para aquele paciente e os sintomas relatados na última consulta, além de ter outras informações que podem tornar mais seguras as decisões do médico, como eventuais sensibilidades a medicamentos indicados no tratamento da Dengue.

Quanto ao aspecto preventivo, uma comunidade em rede possibilita uma integração mais imediata dos dados das unidades de saúde e aqueles coletados pelos epidemiologistas. Dessa maneira, determinadas regiões receberiam uma atenção mais diferenciada, de acordo com a incidência de focos do Aedes Aegypit. Quanto mais crítica for a região, mais preparadas devem estar suas unidades de saúde no que diz respeito a medicamentos e disponibilidade de funcionários. Assim, diminui-se o risco de termos um surto de Dengue, agravado pela falta de estrutura quanto ao tratamento dos pacientes.

Mas, é claro, as soluções aqui apresentadas certamente terão mais efeito caso haja um empenho maior da população no combate ao Aedes Aegypit. Afinal, não há sistema que possa substituir o velho e bom senso de cidadania que cada um de nós pode exercer. Para evitar a proliferação do mosquito da Dengue basta evitarmos o acúmulo de água empoçada em nossas residências. Um primeiro passo simples, não?

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